Pra quê serve a sua bicicleta?

Foto: Ronaldo Damasceno

Ontem eu estava com meu esposo colocando a cozinha em ordem. Para distrair nosso filho, demos a ele uma balança e meia dúzia de limões.

Limpamos a cozinha e guardamos a louça já escorrida. Enquanto eu estava estática, esperando o piso secar da passada de pano, fiquei observando meu filho brincando com os limões: primeiro eram limões mesmo; pesados e avaliados em uma escala de maior e menor. Logo se tornaram jóias; ele um pirata com o tesouro valioso. Mais a frente, cada um era um ser vivo; se jogando perigosamente de cima da lata de Nescau para pousar na mesa (os efeitos sonoros eram bastante realistas e traziam muita emoção à cena: Uoooou! Paá! Push!). Por fim, ele me mostrou como estavam gelados, e como era engraçado: se colocamos em contato com o rosto, dois parecem mais gelados que um só. Três mais que dois. Assim por diante.

Enquanto escrevo essa coluna, já na sala, Lucas ainda brinca com os limões. Já faz mais de 1 hora desde que começou a brincadeira (sim, já lavou as mãos e estou supervisionando para que não as coloque na boca ou nos olhos). Agora os frutos verdes são a carga de um trem – que ele carrega cantarolando uma música que só ele entende.

É incrível ver o quanto as crianças levam a sério isso de se divertirem. Mesmo sem brinquedo, tudo pode virar instrumento: mãos, caixas de papelão, fios de lã… o canudo que faz bolhas no leite. Mas, e nós? Quando perdemos essa capacidade? Quando a bicicleta deixa de ser instrumento de manobras radicais para se tornar um meio de transporte?

 Será que ainda há meios de encontrarmos a felicidade sem a necessidade de viagens incríveis, da compra de algo que talvez nem seja necessário ou de uma noite de bebedeira?

Como adultos, é claro que não precisamos brincar de faz de conta, mas, vejo, em alguns de nós, algo tão mágico quanto a especialidade de transformar tudo em brinquedo: tem gente que se diverte – e se sente feliz, realizado… grato – fazendo o bem! Estão por aí, entre a gente. São protetores de animais, defensores das causas solidárias, amigos que a gente procura quando precisa de um conselho (conheço alguns especialistas nessa arte – ouvem sem esperar ser ouvidos). Que outras categorias você listaria aqui?

Se há algo que o ser humano pode fazer de bom é evoluir e ajudar. Os solidários expandem a vida, saem do pequeno eu para fazer parte, e transformar para melhor o coletivo. Hoje agradeço a inspiração que geram aqueles que se dedicam a quem precisa. Não falo de esmola. É dedicação mesmo, é gente que compartilha tempo da vida. Rompe com o egoísmo. Sei que pra essas pessoas, os limões que a vida dá, rendem, além de limonadas: musses, caipirinhas e o que mais for possível.

Que assim seja com mais de nós!

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