A cultura de estupro precisa acabar

Houve um tempo em que nós, mulheres, éramos vistas como seres inferiores. Sim, pelo simples fato de sermos mulheres.

Naquele tempo, homens – e não só eles, infelizmente – usavam caraterísticas das nossas vestimentas e de nossos comportamentos para justificar violências.

Eu sei, parece absurdo, mas aconteceu.

Há relatos de mulheres que foram assediadas e até estupradas porque usavam batom vermelho. Outras, porque usavam roupas curtas. Outras, ainda, porque estavam caminhando pela rua à noite. Como se a liberdade de ir e vir não fosse um direito assegurado pela constituição.

Para que nós, mulheres, tivéssemos nossos corpos respeitados, tivemos que percorrer um longo e doloroso caminho. Muitas de nós morreram. Outras levam cicatrizes eternas no corpo e na alma.

Dados do Anuário da Segurança Pública, referentes ao ano de 2019 e divulgados em 2020, mostram que o Brasil registra um estupro a cada oito minutos. Durante todo o ano de 2019, 66.123 boletins de ocorrência por estupro ou estupro de vulnerável foram registrados no país. Em 85% dos casos, a vítima é do sexo feminino. Já em 2020, foram mais de 60 mil casos de estupro denunciados.

Para falarmos em dados locais, segundo a Secretaria de Segurança Pública do Paraná, 70 casos de crimes contra a dignidade sexual foram registrados apenas no primeiro trimestre de 2021, no litoral paranaense.

Ainda é preciso levar em conta o imenso número de pessoas que não denuncia a agressão sofrida, seja por medo, por falta de informação ou por incredulidade no sistema penal brasileiro. E é este último fator que pesa muito na decisão de procurar os órgãos responsáveis ou sofrer calada.

Por que ainda resiste a cultura de dar mais credibilidade ao agressor do que à vítima?

Um dia, uma mulher, cansada de ser assediada pelo patrão, levou uma faca na bolsa quando foi trabalhar. Ela, que trabalha como doméstica em uma região em que o frio pouco castiga, acabou presa. Segundo a delegada – sim, delegada – a mulher tentava extorquir o patrão. Sabe o que chamou a atenção da equipe policial? As roupas que a doméstica usava: “curtas e sem manga, sendo que estava frio”. O frio em questão era acima dos 20º em uma tarde ensolarada.

O julgamento das roupas da vítima já é absurdo por si só, mas, se levarmos em conta o histórico do suposto agressor, a história fica ainda mais dolorosa de se aceitar.

O homem que teria violentado a doméstica já tem pelo menos dois boletins de ocorrência registrados por ameaçar uma ex-companheira. Essa é uma característica típica dos abusadores: eles se sentem em condição de superioridade em relação às mulheres.

Ela foi presa. Ele ficou solto.

Ela foi presa. Ele ficou solto e saiu como vítima.

Ela foi presa. Ele ficou solto. Nós ficamos incrédulos.

Sim, em vários momentos esse texto está escrito no pretérito, embora esses relatos ainda sejam presentes. Esse texto, na verdade, é uma prece pela liberdade e pela vida das mulheres. É preciso lutar para que a violência de gênero se torne passado e que seja lembrada apenas como exemplo, para que não mais se repita. É preciso lutar para que sejamos Vivas.

Por Débora Mariotto.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da TVCI.

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