Desumanização: a dor de quem não é cuidada


Faz algumas semanas que a TVCi exibiu uma denúncia por parte de uma gestante. Na ocasião, ela que já estava em seu nono mês, escolheu ter cesárea, mas não foi escutada e teve sua filha de forma natural. Dias após, uma outra mãe vivenciou a mesma situação, seu direito não foi respeitado. E não chegou a dar uma semana para um novo caso ser noticiado, desta vez, ao chegar no ambiente médico com sua bolsa estourada, o médico indicou que a gestante voltasse para casa pois ainda “não estava na hora” e restou a sua mãe realizar um parto improvisado.
Quem escuta estes relatos pela primeira vez pode até pensar que esta é uma realidade distante. Mas não, acontece a cada semana de baixo de nossos olhos. Nós tivemos alguns relatos, contudo, quantos outros não são silenciados? Quantas mães convivem com o receio de não chegar a ter seu filho no braço? Se sentem violentadas e vulnerabilizadas?
A violência obstétrica é uma realidade e acontece a cada vez que uma mulher, durante seu ciclo reprodutivo – desde o pré-natal até o puerpério – tem um direito violado. São mulheres que precisam conviver com a incerteza, isto porque nem mesmo uma lei estadual (Lei 19.701/2018) tem levado a segurança de sua escolha.
Em cada mãe que deixa de ter a escolha do seu parto atendida, há a violência obstétrica. Em cada mulher que sofre negligência ou falta assistência durante sua gestação, também há violência. Em cada caso de proibição de pessoas na sala de parto, insultos, agressões e recusa de atendimento, o ciclo novamente se repete.
Quantas passam por isso e ao menos percebem? E isso não é culpa da mulher. O fenômeno passa a ser comum porque o assunto é muitas vezes – quase sempre – banalizado e a violência contra os corpos femininos, naturalizada.
Não há justificativa. A negligência faz com que o nascimento seja transformado em uma violação, muitas vezes, silenciosa.
Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo em conjunto com o Serviço Social de Comércio (SESC) mostra que a cada 4 mulheres, 1 é vítima de violência obstétrica. E quando a dor do parto se torna a dor de uma violação, mas uma vez retornamos a estaca “e quem cuida de quem cuida?”. A resposta? Ninguém!

Por Ana Zampier.

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