Antes de se tornar uma das figuras mais conhecidas da religiosidade popular de Curitiba, Maria da Conceição Bueno era uma jovem natural de Morretes, no Litoral do Paraná. Ela deixou a cidade natal e se mudou para Curitiba em busca de trabalho, onde passou a atuar como lavadeira.
Mais de 130 anos depois, Maria Bueno continua presente na memória do Paraná. A jovem, descrita em registros históricos como pobre e parda, foi brutalmente assassinada na antiga Rua Campos Gerais – atualmente Avenida Vicente Machado – e acabou transformada, ao longo das décadas, em uma das figuras mais conhecidas da religiosidade popular de Curitiba.
Mas, antes de se tornar conhecida como a “santa popular” ou “milagreira” de Curitiba, Maria Bueno foi uma mulher vítima de um assassinato que, atualmente, é compreendido por pesquisadores e pela justiça como um caso de feminicídio.
O Museu Casa Alfredo Andersen, em uma exposição dedicada à sua memória, classificou Maria Bueno como a primeira vítima de feminicídio retratada nos jornais da época. A mesma referência foi divulgada pelo Governo do Paraná.
A história ganha ainda mais relevância neste 22 de julho, Dia Estadual de Combate ao Feminicídio no Paraná, data criada em memória da advogada Tatiane Spitzner, assassinada em 2018.
O crime que chocou Curitiba
As informações sobre a vida de Maria Bueno são escassas e muitas foram misturadas, ao longo do tempo, com versões populares e elementos de lenda.
O que existe de concreto é que o assassinato foi registrado pela imprensa curitibana em janeiro de 1893. No dia seguinte ao crime, o Diario do Commercio noticiou que uma mulher havia sido encontrada morta em uma área próxima à antiga Rua Campos Gerais.
A publicação descreveu a vítima como uma mulher parda e relatou que ela apresentava graves ferimentos no pescoço e nas mãos, indicando que teria ocorrido uma luta antes da morte.
A notícia também mencionava a possibilidade de que o crime estivesse relacionado a uma situação de ciúmes. Décadas mais tarde, pesquisas e relatos históricos passaram a apontar o soldado Ignácio José Diniz como o homem suspeito de matar Maria Bueno.
O caso chegou à Justiça. Segundo documentos históricos recuperados pela Câmara Municipal de Curitiba, Diniz foi levado a julgamento e absolvido pelo Tribunal do Júri em 12 de julho de 1893. Após a decisão, foi determinada a expedição do alvará de soltura.
O que os documentos históricos revelam
Uma das principais fontes sobre o caso são os jornais publicados em Curitiba no período. O assassinato foi noticiado apenas um dia depois da morte, o que permitiu que parte da descrição do crime fosse preservada nos arquivos históricos.
Outro documento importante é o registro do julgamento de Ignácio José Diniz. A ata da sessão do Tribunal do Júri registra a absolvição do acusado, um dado que contrasta com a forma como a história foi transmitida pela memória popular ao longo dos anos.
Também existem registros do Cemitério Municipal São Francisco de Paula. Maria Bueno foi sepultada no local em 1893. Décadas depois, em 1960, seus restos mortais foram transferidos para uma capela construída por devotos, onde permanece um dos túmulos mais visitados.

Imagem: Câmara de Curitiba
Da vítima de um crime à “santa popular”
Depois da morte, o local onde Maria Bueno foi assassinada passou a receber a visita de pessoas que acendiam velas e faziam orações. Com o tempo, surgiram relatos de acontecimentos considerados milagrosos, como velas que não se apagavam e o nascimento de uma roseira no local onde o corpo teria sido encontrado.
A devoção cresceu e Maria Bueno passou a ser conhecida como uma espécie de santa popular de Curitiba.
A transformação da vítima em uma figura religiosa, também veio acompanhada de versões sobre sua vida que não podem ser comprovadas documentalmente. Pesquisadores ressaltam que há poucas informações confiáveis sobre a trajetória pessoal de Maria Bueno e que muitas narrativas foram construídas posteriormente.
O Museu Casa Alfredo Andersen destacou justamente essa contradição: Maria Bueno foi, ao mesmo tempo, vítima de um assassinato brutal, alvo de julgamentos sobre sua reputação e, posteriormente, transformada em uma figura de devoção popular.

Imagem: Câmara de Curitiba
Por que o caso é relacionado ao feminicídio?
O termo feminicídio não existia juridicamente em 1893. A legislação brasileira passou a reconhecer o feminicídio como qualificadora do homicídio em 2015 e, desde 2024, o crime passou a ser considerado um tipo penal autônomo.
A classificação histórica do caso de Maria Bueno como feminicídio ocorre a partir da compreensão de que ela teria sido assassinada em um contexto de violência relacionada à sua condição de mulher. As pesquisas e os relatos históricos associam o crime a uma relação com o soldado apontado como seu assassino e a uma possível motivação ligada ao ciúme.
Mais de um século depois, a memória de Maria Bueno permanece
A história de Maria Bueno atravessou gerações e continua presente em Curitiba. O túmulo, no Cemitério Municipal São Francisco de Paula, tornou-se um dos principais pontos de devoção popular da cidade.
A trajetória da jovem também foi revisitada por museus, pesquisadores e instituições culturais, que passaram a questionar não apenas a dimensão religiosa construída em torno de sua imagem, mas também a história da mulher que existia antes da lenda.
Em 2022, o Museu Casa Alfredo Andersen promoveu exposições e atividades para recontar a história de Maria Bueno e discutir como sua imagem foi construída ao longo do tempo. A instituição destacou que ela foi vítima de violência, preconceito racial e machismo, mas acabou tendo sua memória transformada pela cultura popular.
22 de julho: memória e combate ao feminicídio
A história de Maria Bueno ganha ainda mais significado nesta semana, quando o Paraná marca o Dia Estadual de Combate ao Feminicídio, celebrado em 22 de julho.
A data foi instituída em memória da advogada Tatiane Spitzner, encontrada morta em 2018, em Guarapuava. A legislação estadual prevê a realização de debates, seminários e outras ações de conscientização sobre o enfrentamento à violência contra as mulheres. A data integra atualmente o Código Estadual da Mulher Paranaense.
Mais de um século separa as histórias de Maria Bueno e Tatiane Spitzner. Os casos ocorreram em épocas completamente diferentes, com leis, costumes e estruturas sociais distintas.
Mas a memória de ambas ajuda a contar uma história que atravessa o tempo: a violência contra as mulheres não é um fenômeno recente.


Imagem: reprodução 






